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Operação Carro-Pipa: suspensão deixa comunidade inteira sem água em Tauá, no Sertão dos Inhamuns

A suspensão da Operação Carro-Pipa no Ceará pegou de surpresa os moradores do distrito Cachoeirinha do Pai do Senhor, em Tauá, a 342 quilômetros (km) de Fortaleza. Desde que o fornecimento de água pelo Exército foi interrompido, no dia 11 de dezembro, as mais de 300 pessoas que moram no povoado estão sem alternativa de abastecimento. No Ceará, o problema atinge mais de 147 mil moradores de áreas rurais, conforme noticiado pelo O POVO. 

Com cisternas secas, muitas famílias recorrem aos vizinhos para ter acesso à água potável. Esse é o drama enfrentado pelo agricultor Horácio Sousa. “No começo dessa semana faltou [água] até para beber e cozinhar. A gente não sabia mais o que fazer”, relatou ele.

Angustiado, o agricultor resolveu procurar o presidente da Associação dos Moradores do distrito, Francisco Alexandre, que o socorreu com alguns baldes de água. “Vai dar para alguns dias, mas não sei como vai ser depois”, disse o agricultor, que vive com a esposa e um filho pequeno.

“A [cisterna] da minha casa também está seca, mas a do meu pai ainda tem um pouco de água. Tirei [água] de lá pra ajudá-lo [Horário]”, contou o líder comunitário. Segundo Francisco, outros moradores da comunidade têm o procurado cotidianamente pelo mesmo motivo.

“Todo mundo vem pedir água, mas não posso ajudar todos, não tenho condições. O que eu posso fazer é procurar os políticos, a Prefeitura, mas ninguém resolveu nada até agora, só tem promessa”, afirmou o presidente da associação.

A suspensão do abastecimento feito pelos carros-pipa esbarra em outro problema, a crise hídrica. Historicamente, a região do Sertão Central e Inhamuns, onde Tauá está localizado, registra os menores acumulados de chuva do Ceará.

Na Cachoeirinha do Pai do Senhor, que fica distante cerca de 50 km da zona urbana, todos os açudes e barragens estão secos, de acordo com Francisco. “Não tem um pingo d 'água em canto nenhum. A situação é muito séria e não é de hoje”, lamentou ele.

Além da escassez nos reservatórios, há outra adversidade: a água subterrânea da região é salobra, ou seja, contém alta concentração de sal, sendo imprópria para o consumo. No povoado até existem poços artesianos que levam água às residências, mas o líquido não serve sequer para o preparo de alimentos.

“Essa água aí a gente não usa nem no feijão. É muito sal. Só dá para tomar banho e olhe lá”, destacou Francisco, ao que complementou: “Quem quiser água para beber tem que comprar, não tem outra saída”.

Um morador da comunidade que pediu para não ser identificado disse ter pagado R$ 250 por um carregamento de água em caminhão-pipa com 10 mil litros. Ele também era atendido pela operação do Exército. “Quem pode comprar uma carrada, compra, quem não pode vai levando a vida”, contou.

Segundo ele, o reservatório hídrico mais próximo é o açude do Riachão, localizado no município vizinho, Pedra Branca, a aproximadamente 24 km do povoado. “Só quem é dono de pipa tem condições de ir, é muito longe pra gente pegar de balde em balde”, acrescentou.

Tauá é o município cearense com maior número de pipeiros cadastrados na operação especial de abastecimento do Exército. São 53 no total, segundo dados fornecidos pela corporação. Em virtude do quadro de escassez hídrica da região, os pipas são abastecidos nos aquíferos do município de Pio IX, no Piauí, a 145 quilômetros da cidade cearense.

Além de Tauá, a Operação Carro-Pipa atende outros 32 municípios do Ceará. No total, são 338 carros-pipa cadastrados. Pelas regras do programa, cada residência deve receber em média 20 litros de água potável diariamente por cada morador. 

A Defesa Civil de Tauá informou, por meio de nota, que deu início nessa quarta-feira, 21, a uma operação de abastecimento emergencial nas comunidades afetadas pela suspensão do programa de distribuição de água do Exército. Conforme planilha enviada pelo órgão ao O POVO, os moradores da comunidade Cachoeirinha Pai do Senhor serão contemplados com dois carregamentos de carro-pipa até o dia 26.

A reportagem também procurou por email, telefone e mensagem via WhatsApp a 10ª Região Militar, sediada em Fortaleza, para saber se há previsão de normalização do abastecimento feito pela operação. A matéria será atualizada quando as demandas forem respondidas. 

Reportagem: Luciano Cesário

O Povo Online

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