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Sem acesso à água, famílias do Interior do Ceará escolhem entre matar a sede e se proteger da Covid; em duas localidades da zona rural de Iguatu.

Foto - Honório Barbosa
 

Diarreia, febre, cólera, verminoses, tantas outras doenças e, agora, a Covid-19. Para milhares de cearenses o novo coronavírus veio para inflar a dura realidade daqueles que não têm acesso à água potável. Sem este bem elementar, fica inviável manter a higienização frequente das mãos conforme orienta a Organização Mundial da Saúde (OMS) como forma de reduzir a transmissão do vírus.  Diante da escassez do líquido, famílias se veem encurraladas na decisão de usar a pouca água para beber ou para higienização. 

A escolha natural, claro, é saciar a sede e os cuidados recomendados pelos especalistas acabam por ficarem em segundo plano. É assim para mais de 70 famílias em duas localidades da zona rural de Iguatu.   “Para fazer a higienização é preciso mais água, só que não temos nem para beber e tomar banho”, externa Maria José Cardoso, presidente da Associação dos Moradores do Assentamento Mirassu, em Iguatu, região Centro-Sul do Estado. Na localidade vivem 26 famílias, todas enfrentam a mesma dificuldade de acesso à água.   Com os olhos boiando em águas salgadas – a única que não costuma faltar –, Maria acrescenta: "A gente fica sem saber o que fazer. Desprotegida quando volta da rua, não temos como lavar as mãos nem as compras. Só nos resta a proteção de Deus".  A cerca de 30 km do Assentamento, outras 48 famílias residentes na Agrovila Ingá, também em Iguatu, padecem do mesmo dilema. 

“Nessa pandemia a gente tem de se virar com o que tem, se chover ou rapaz da pipa [referindo-se ao Caminhão-Pipa] trouxer [água], a gente tem, se não, é o que Deus quiser”, lamenta a agricultora Edilene Braga.  Aos moradores da Agrovila, fundada há mais de dez anos, a ironia é que eles convivem com a falta de água mesmo estando a poucos metros do Açude Trussu, reservatório responsável pelo abastecimento das cidades de Iguatu e Acopiara.  “Estamos apenas 800 metros do sistema de captação de água do Saae (Serviço Autônomo de Água e Esgoto) de Iguatu e não temos água porque não há um sistema de bombeamento”, criticou o aposentado José Sales. “Não temos água bruta e nem tratada”. O médico sanitarista e coordenador da unidade da Fundação Oswaldo Cruz, no Ceará, Carlile Lavor, considera grave a situação das famílias vulneráveis socialmente e reconhece que, diante tantos problemas, a pandemia da Covid-19, embora grave e que mereça amplo cuidado, acaba ficando em segundo plano.  “O vírus não se enxerga, mas essas famílias sentem a falta de água diariamente.

 Portanto não conseguem colocar a preocupação com a Covid em primeiro lugar", avaliou Carlile, que é o idealizador dos 'Agentes Comunitários de Saúde', uma experiência que começou no Ceará, no fim da década de 1980, e se estendeu pelo Brasil. O também sanitarista, Odorico Andrade, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e pesquisador da Fiocruz, compartilha do mesmo pensamento e adverte que “não dá simplesmente para esperar desses moradores a adoção de medidas de prevenção, porque na verdade, eles não têm como colocar em prática além de estarem com outras preocupações urgentes em suas vidas, como buscar água para beber".Edilene, Maria José, Marlete e José Sales não são casos isolados. Eles fazem parte de uma grande parcela da população brasileira que não tem acesso à água. Conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 10% dos domicílios brasileiros não contavam, em 2019, com abastecimento de água diariamente.  

No Ceará, o relatório do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Sisagua), mostrou que 620 mil cearenses - 6,75% do total - não recebem água tratada. Eles utilizam soluções coletivas, como chafarizes, dessalinizadores, carros-pipas e caixas de distribuição pública.  Para estas pessoas, o risco de adoecer rompe as fronteiras da atual pandemia. A vulnerabilidade  a outras doenças os acompanha desde sempre. A médica Luana Barbosa explica que, a falta de água potável, além de ser um grave problema social, representa muitos riscos à saúde.   A profissional detalha que a maioria das doenças a que este contingente de pessoas estão expostos tem ciclo de transmissão “feco-oral”, isto é, quando os agentes causadores presentes nas fezes humanas ou de animais entram pela boca de uma pessoa e ela acaba adoecendo.  

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