segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Prefeitos cearenses esperam definições dos governos Federal e Estadual para preparar vacinação contra Covid-19

 

Foto - AFP

Em meio a um cenário de incertezas sobre o início da vacinação contra a Covid-19 no Brasil, prefeitos cearenses aguardam definições dos governos Federal e Estadual para começarem a elaborar seus planos operacionais para vacinação contra a infecção do novo coronavírus. Sem datas definidas e prazos a serem cumpridos, eles esperam o sinal verde para coordenar e executar as ações de imunização nos territórios pelos quais são responsáveis. A expectativa é que as primeiras doses cheguem em 2021, direcionadas a grupos prioritários, como profissionais da saúde e indígenas, conforme anúncio do Ministério da Saúde. 

Com expertise em imunização de outras doenças previstas no calendário nacional de vacinação, assegurado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e aplicado pelas unidades básicas (UBS) da rede municipal, os gestores ouvidos pela reportagem acreditam que os profissionais da área, nas redes municipais, não enfrentarão dificuldades para manusear os imunobiológicos. 

No entanto, eles reconhecem que será necessário capacitá-los, dadas as especificidades que a vacina da Covid-19 deve ter, como a conservação em câmaras refrigeradas que atinjam baixíssimas temperaturas. Porém, sem informações técnicas efetivas, dizem que ainda não há o que fazer. 

O prefeito de Iguatu, Ednaldo Lavor (PSD), reeleito em 2020, destaca que aguarda as orientações da Secretaria da Saúde do Estado (Sesa) para planejar uma estratégia. “Precisamos ver a logística da vacina e seguir as orientações, (as definições do) grupo prioritário”, pontuou.

“Por enquanto não temos nenhuma informação, mas estamos preparados para, se necessário, ir à casa dos idosos, como fizemos com a vacina da gripe no primeiro semestre deste ano”, acrescentou. 

O prefeito do Crato, Zé Ailton Brasil (PT), também reeleito, diz que irá seguir o calendário do Estado. “Vamos seguir o calendário do Estado, que tem feito um plano de vacinação seguindo o que é determinado pelo Governo Federal”, afirma. 

Ele acrescenta que ainda tem dinheiro em caixa de verba do Governo Federal para combater a pandemia e que irá destinar para o “que for necessário” com a vacinação. 

Com uma baixa arrecadação própria e sem condições de comprar mais insumos básicos, os prefeitos receberão seringas e agulhas para aplicar o imunizante adquiridas pelo Governo do Estado, e câmaras de conservação oriundas do Governo Federal. “Estamos aguardando um posicionamento do Ministério da Saúde e da Sesa”, disse a prefeita de Quixelô, Fátima Gomes (PT), gestora do menor município da região Centro-Sul.

“Por enquanto não temos muito o que fazer”, afirma.

Plano estadual

Na última quarta-feira, o Governo do Ceará atualizou seu programa de contingência de enfrentamento à Covid-19, com planos de imunização. Nele, o Executivo define as competências dos entes. O Governo Federal, por exemplo, será o responsável pela aquisição de 243 câmaras refrigeradas a serem distribuídas entre os 184 municípios, enquanto o Executivo Estadual irá adquirir insumos, como seringas e agulhas, com quantitativo suficiente para aplicação das duas doses previstas em todas as cidades - o que deve custar cerca de R$ 1,5 milhão ao Estado.

Já os municípios terão que coordenar e executar a vacinação, notificar e investigar eventos adversos e óbitos associados à vacinação; gerenciar o estoque municipal de acordo com as normas; manter a qualidade e segurança da vacina em condições adequadas conservação e temperatura; repassar as informações sobre a vacinação; e elaborar plano operacional. Todos aguardam, antes de qualquer ação, aprovação dos imunizantes pela Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa).

População

Enquanto as definições não saem, a população segue na expectativa. A aposentada Francisca Melo, moradora de Iguatu, ainda se sente insegura com o que tem ouvido falar da vacina. “Essa vacina pode matar os idosos e acho que vou esperar outros tomarem primeiro”, diz. O desconhecimento sobre a segurança do imunizante mostra a necessidade de os gestores estabelecerem uma comunicação eficiente com a população sobre os protocolos seguidos até a aprovação da vacina.

Já o professor Marcos Fontes, também de Iguatu, ressalta que “a pandemia só termina com a vacina e espero que chegue logo aos municípios do interior para que possa ser imunizado”. 

Diretrizes

O presidente da Associação dos Municípios do Ceará (Aprece), Nilson Diniz (PDT), também prefeito de Cedro até 31 de dezembro, diz que a instituição está criando um roteiro com diretrizes gerais aos gestores, sobre grupos prioritários, etapas de vacinação, ampliação dos locais para aplicar os imunobiológicos para evitar aglomerações, entre outras medidas, para que eles possam criar os planos e capacitar os profissionais. 

“O papel dos municípios é organizar um plano de operacionalização local. Nós já estamos fazendo um roteiro junto com o Consems (Conselho das Secretárias Municipais de Saúde) para os municípios irem se preparando para quando a vacina chegar, para eles identificarem a população prioritária, distribuição por faixa etária e logística”. 

O gestor também reclama da politização e da queda-de-braço entre governos em torno da vacina, que, para ele, leva incertezas à população e atrasa medidas sobre o tema.

“Essa politização é sem necessidade, a população não precisa ficar ouvindo tanta besteira, as pessoas querem é poder tirar as máscaras”, defende Nilson Diniz.

De 16 março a 20 novembro deste ano, data em que foi publicado o primeiro decreto estadual com restrições no Estado, os 184 municípios cearenses já gastaram R$ 557 milhões com despesas assistenciais para enfrentamento da doença. Esse valor é referente a despesas contratadas com dispensa de licitações emergenciais e inexigibilidade (ver gráfico).Providências 

A prefeita de Icó, Laís Nunes (PDT), disse que vai começar, nesta semana, “uma discussão local com os profissionais de Saúde para elaborar um plano de ação municipal para quando a vacina chegar”. 

A Prefeitura de Caucaia, um dos poucos municípios no Ceará com população indígena, informou, em nota, que possui 49 salas de vacinas distribuídas nos seis distritos de saúde da cidade e que tem pontos de vacinação descentralizados. Além disso, afirmou que “está elaborando um plano de contingência junto com as mais 80 equipes de atenção primária à saúde para identificar os grupos a serem vacinados”. 

“Seguiremos as recomendações do Ministério da Saúde e do Estado. Apesar de ser uma vacina nova, já temos a experiência de outras campanhas de vacinação, como a da Gripe Influenza e do Sarampo. Portanto, a vacina contra a Covid-19 se apresentará com os mesmos desafios das demais, ou seja, vacinar a população alvo e atingir a cobertura vacinal adequada”, diz a Prefeitura. 

O município pontuou, ainda, que as estratégias definidas serão repassadas para a equipe de transição do novo governo, para dar continuidade ao plano de vacinação no município. Lá, quem irá assumir a Prefeitura a partir de 1º de janeiro é o deputado estadual Vitor Valim (Pros).

Previsão de aprovação de vacina no Brasil

Das 51 vacinas desenvolvidas por diversos laboratórios do mundo que estão em estágio clínico, ou seja, sendo testadas, 10 estão nas últimas fases dos ensaios. Destas, quatro estão na fase 3 de testes no Brasil: a da Universidade de Oxford, da Johnson e Johnson, da Pfizer e da chinesa Sinovac. O Ministério da Saúde disse que o País terá ao menos 300 milhões de doses a partir do ano que vem. 

Imunização feita por diferentes laboratórios

São 100 milhões de doses da AstraZeneca/Universidade de Oxford, 160 milhões dessa mesma vacina a ser produzidas pela Fiocruz e mais 40 milhões do consórcio internacional Covax Facility. Além disso, o Ministério assinou termo de intenção de compra de 70 milhões de doses da Pfizer